Ficar


Não nos desabituamos do Verão



                                                                           na Deserta




Ver e engraçar e fugir,  sempre a ir,  sempre a ir!
Os próprios olhos nossos nos sugam. Afinal.

Ver e ficar- saber.

Aí o tempo de receber o brilho que vem à respiração, fresco.
Estenda a mão - o ar dá o contorno do corpo.
Deixe lá os olhos em standing by.
É a pele na fala - plena

Para o ir, fazer nada.  O ir está sempre aí, certo. Leva o nosso. O brilho dele, fica.

Ficar. É Verão. O tempo largo que chega.
Os dedos dos pés abertos vitais experimentam.
Praias voluptuosas da não-predação. Há.
Trilhos do nosso tempo.

Os amantes nas ilhas debruçam-se sobre o mar. Sabem da outra pele.

Insistir ficar. Afinal.        
Olhos virados para o brilho.
O tempo alarga e nós lá. Água, Mulher, Filho, Pão. Peixe.
Oh, Luz!
Afinal ficar.

À noite acendem-se quintais de luz. Visitamos.
Eternos uns dos outros.


 Branca Clara das Neves
Deserta

Poema de Deolinda Rodrigues










Consoada de Deolinda Rodrigues de Almeida



- Às sete
perto da retrete
não faltar, uma a uma
já tenho tudo pronto para pôr-vos na outra margem
é só saber correr, que o piloto está aqui esperando,
se vos descobrem sou fuzilado
que paga terei por este risco?

.

Já passa das sete
a cadeia ensina a iludir-se
enquanto não vem o sinal
     combinado
antecipam-se os sonhos
amanhã é Natal
Natal na liberdade
puxa! Estar com os camaradas
respirar o ar da dignidade
voltar a ser eu

O sinal.
Vamos embora?
.

- Ainda não. Mais tarde 
primeiro a paga
serem minhas aqui no capim.
Não querem?
Estão armadas em espertas?
Bem, virei buscar-vos à meia noite...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
.

É o sinal?
Não.
É dia.
Uma noite de vigia
e tudo em vão.
É Natal
Natal na prisão.

Dezembro 1967

( sim é a Deolinda Rodrigues, ela própria, herói nacional, nome de rua gritado todas as manhãs nas informações do tráfego: na Deolinda Rodrigues está jóia, está beijo, está muito complicado, não se passa, alternativa Deolinda Rodrigues.
Este é um poema seu publicado na brochura Poesia de Combate, edição do Comité de Acção do MPLA no Porto, Oficinas gráficas do "Comércio do Porto", 19 de Junho de 1974.)
(Premonição da desgraça do grupo feminino Esquadrão Camy? 49 anos depois, muito que pensar. Os mesmos, são?)