de tarde na Tundavala




Consoada de Deolinda Rodrigues de Almeida



- Às sete
perto da retrete
não faltar, uma a uma
já tenho tudo pronto para pôr-vos na outra margem
é só saber correr, que o piloto está aqui esperando,
se vos descobrem sou fuzilado
que paga terei por este risco?

.

Já passa das sete
a cadeia ensina a iludir-se
enquanto não vem o sinal
     combinado
antecipam-se os sonhos
amanhã é Natal
Natal na liberdade
puxa! Estar com os camaradas
respirar o ar da dignidade
voltar a ser eu

O sinal.
Vamos embora?
.

- Ainda não. Mais tarde 
primeiro a paga
serem minhas aqui no capim.
Não querem?
Estão armadas em espertas?
Bem, virei buscar-vos à meia noite...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
.

É o sinal?
Não.
É dia.
Uma noite de vigia
e tudo em vão.
É Natal
Natal na prisão.

Dezembro 1967

( sim é a Deolinda Rodrigues, ela própria, herói nacional, nome de rua gritado todas as manhãs nas informações do tráfego: na Deolinda Rodrigues está jóia, está beijo, está muito complicado, não se passa, alternativa Deolinda Rodrigues.
Este é um poema seu publicado na brochura Poesia de Combate, edição do Comité de Acção do MPLA no Porto, Oficinas gráficas do "Comércio do Porto", 19 de Junho de 1974.)
(Premonição da desgraça do grupo feminino Esquadrão Camy? 49 anos depois, muito que pensar. Os mesmos, são?)

                                                                                                   Arte Funerária Mbali  *




Tundavala: Dossier do Perdão


Olha como a árvore respira ali na pedra. Santa.
Plantas bissapas vermelhas, brancas, verdes. Santas.
O céu ali mesmo, a passar. Santo.
Os pássaros e as lagartixas. Santos.
A atmosfera sustenta-nos de azul e ar e damos caminho à luz. Definitiva.
Somos muito pequenos.

Recebemos este lugar e matámos aqui. Todos matámos e eles que morreram.
Podemos sentar hoje e comer as laranjas nossas de longe pousadas nos cestos reais, nossos de longe. Laranjas Nzeto pousadas nos cestos Cazombo.  Marcas nossas.
Somos muito velhos, custa agradecer.
Recebemos este lugar e matámos aqui.

Agora não dizer que esse dossiê do perdão é lá com Deus.
É connosco mesmo.

Preciso desse ar, da pedra, das bissapas vermelhas, das lagartixas e dos cãezinhos que viram tudo. Aqui mesmo ao lado.
Passem os pássaros que nos ensinam a passar. Santos. Todos.

Preciso da atmosfera que sustenta. E tu. Ela também tinha dito. Antes de. Poder respirar lá.
Depois agradecer com os óleos perfumados. Uns aos outros consentir. Recebe então, sim. Dá então, sim.
Então, fica igual os dois. E a subir de verdade.

O chão sempre. O ar, os meninos, a lagartixa, os pássaros, a atmosfera que sustenta, a pedra.

Sempre a subir.

* Sudoeste de Angola, sec XIX-XX. Recolha de Pancho Guedes em Moçâmedes/ Namibe e Porto Alevxandre /Tombwa c. 1969
Fotografia da autora na Exposição no Mercado de Santa Clara comissariada por Alexandre Pomar 


Branca C. das Neves

      Zé da Guiné - Lisboa